Ontem, fazendo mão e pé, Maria – que vi pela primeira vez – começou calada, talvez vendo que eu estava entretida em minha leitura. Quando começou a fazer minhas mãos, desembestou a falar.
Baiana de 58 anos, simpaticíssima, veio a SP aos 14, casou aos 17, ficou 18 anos casada, teve 1 filho e separou-se em 1989. Depois disso, teve 3 namorados – sendo um japonês, a quem lembra com carinho, dizendo que foi ao Japão e não voltou mais.
E está solteira. Seu filho, de trinta e poucos anos, mora com ela.
Vaidosa, cabelos curtos tingidos, pouca maquiagem e piercing no dente. Como toda manicure, suas unhas não estavam feitas.
Afirmava a todo momento que não queria casar, só namorar. Um caso aqui, outro ali…
Enquanto fazia seu trabalho, entrou no recinto um cara de meia-idade, que logo se sentou numa das cadeiras. Uma mulher logo começou a fazer seu serviço – aparar os pêlos da orelha (sim gente – isso é necessário e fico feliz que há pessoas como ele que sabem disso). Foi embora meia hora depois, sem pagar.
Maria chama: “Neide, venha cá! Neide!!”. Ela me conta que Neide, uma das cabeleireias, é a irmã do homem que acabara de sair. Eu não percebi, mas Neide havia dito a ele que ela (Maria) estava solteira, e que poderiam sair juntos, por quê não?
Maria me conta que ficou com vergonha, não precisava daquilo. Afinal, quem precisa de homens?
Mas no fim, puxou a Neide de lado e cochichou: “Pode dizer a ele que gosto muito de dançar. Se um dia ele quiser sair, é só me levar para dançar. Mas só dançar, hein?!”.
E ali, por trás daqueles óculos e rugas de 58 anos, havia uma menina, só pedindo um par de dança.
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