Garapa
28 ago 2011 3 Comentários
“Tome sua garapinha, meu filho”.
Garapa = água quente com açúcar. Receita utlizada e ingerida por pelo menos 11 milhões de brasileiros como “antídoto” para a fome.
Faz muito tempo que eu queria assistir ao documentário Garapa, do diretor José Padilha. Desde seu lançamento em 2008/2009, na verdade. Mas só agora chegou às locadoras.
Como abordar a fome, um substantivo tão abstrato e tão real? Como mostrá-la de uma forma objetiva, sem sentimentalismos e sem números?
Quatro famílias cearenses, escolhidas a esmo, servem como retrato preciso de como ela funciona. Não é como se pensa: aquelas crianças africanas esqueléticas e cheias de mosquitos e ramelentas.
Além da questão da fome, fica claro o papel feminino nessa estrututa de miséria. Sem querer criticar os homens, é nítido como as mulheres reagem de maneira mais… forte. Cuidam de 2, 5 ou 10 filhos, na base da garapa e sem ajuda do marido, muitas vezes alcoólico.
Para a galera que não entende como funciona o programa Fome Zero, Bolsa Família e o escambal, e que ainda ofende as pessoas que recebem de “vagabundos”, é um tapa na cara, bem dado.
As pessoas passam fome constantemente. Ou seja: trabalham, vivem e dormem com uma deficiência nutricional enorme. A melhor frase para resumir o que acontece foi dita por um pai de família, jovem:
“Eu nunca, para dizer assim, merendar, almoçar e jantar, nunca na minha vida. Tenho 28 anos e nunca merendei, almocei e jantei”.
É cinema-direto sem música de fundo, sem narração, sem firulas. Seco, literalmente. Talvez eu preferisse ver colorido, mas entendo bem a escolha do PB.
Enfim, mais do que recomendável. Para quem nunca viu, o doc Ilha da Flores, do Jorge Furtado, vai na mesma linha. Aliás, a equipe de Garapa é a mesma que trabalhou em Estamira, Ônibus 174 e Tropa de Elite. Precisa mais?
No final, é inevitável pensar na relação que a produção e o diretor do filme tiveram com aquelas pessoas. Como José Padilha disse nos extras, eles tinham comida. E aí, #comofaz?
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ps: boa entrevista (em inglês) com o Padilha.
ps2: tive que assistir ao filme com legendas.


Vera Nabuco
ago 29, 2011 @ 11:19:08
Mostra uma realidade que deveria chegar a conheicmento de muitos, para reflexão… “muitos” que não estão nem aí…
iarinha
set 05, 2011 @ 10:35:10
Muitos ainda acham que a miséria no Nordeste é coisa do passado. Eu conheço razoavelmente bem o interior da Bahia e sei o que é chegar em determinados lugares em que até a água é terra, onde as pessoas precisam de bolsas família e muito mais. Infelizmente, tem muita gente que critica aleatoriamente sem saber o que realmente se passa fora do seu quintal. Eu não assisti ainda o filme, mas acho que filmes assim devem ser duros e secos mesmo pra ficar engasgado e fazer a pessoa rever seus conceitos.
yohanandrade
set 08, 2011 @ 18:31:40
É bem por aí mesmo. Difícil criticar algo sem conhecer bem, né? O doc, por mais simples que seja, dá uma boa noção do que é a fome.